sábado, 19 de agosto de 2017

Máscara

Annie Leibovitz - Meryl Streep, New York, 1981

Debaixo da máscara o que encontramos? Outra máscara. E debaixo desta? Uma nova. Enquanto alguém pensar que é alguma coisa, o que descobre por detrás da máscara com que representa o seu papel social é apenas uma nova máscara. O desejo de que por debaixo da aparência exista a realidade não passa disso mesmo, um desejo.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Árvores

Pier Luigi Lavagnino - Alberi (1969)

Uma árvore não é mais do que um silêncio que tomou corpo. Do alto da sua mudez, ela olha com condescendência para a bavardage onde os homens, sem parar, se afogam. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Vida interior

Meyer Schapiro - Abstract Interior (1950)

Um dos equívocos mais perigosos para a vida interior é confundi-la com uma existência plena de abstracções. Um conceito, por exemplo, é uma mera representação, enquanto a vida é sempre uma presença, um estar presente aqui e agora. O caminho do espírito começa sempre por um elevar-se da inocência concreta ao domínio da abstracção - é o momento da representação - para, de seguida, conquistar-se a si mesmo como realidade viva e plena, como presença pura no devir. Este é o tempo da sabedoria.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Poemas do Viandante (644)

Gerardo Rueda - De levante a poniente (1974)

644. de levante a poente

de levante a poente
sigo o rumo
do astro
escuto a erva
a ronronar
na palidez da planície
e
se o oriente se afasta
o mar em mágoa
afoga um diadema de fogo

(13/12/2016)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Haikai urbano (18)

Ara Güler - Traffic on the old Galata Bridge, Turkey, 1956

cidade nocturna
sombra e secreto segredo
da noite a luz

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A necessitada

Deborah Turbeville - Clothes by Romeo Gigli, Mirabella Magazine, 
École des Beaux Arts, Paris, 1989

O sangue corre-me um pouco mais rápido nos lábios, sinto a pressão contra a pele, a boca lateja. Engulo a saliva e passo com a língua pelos lábios. Vejo os dele e sinto que a pressão dos meus, o latejar do sangue no seu interior, é um sinal. Sinal de uma falta. Quase sinto o que me falta, uma ausência física. O coração estremece ao de leve e respiro. O ar entra muito lentamente pelas narinas e a tensão cresce. Penso nele e o coração é lacerado por uma dor. Inclino-me mas não está ali, apenas uma necessidade sem fim de lhe sorver os lábios, de os arrepanhar. Os lábios, os meus latejam no vazio.

domingo, 13 de agosto de 2017

Haikai do Viandante (332)

Filippo de Pisis - Paesaggio alpestre con case (1927)

casa na montanha
presa ao silêncio do dia
a sombra irrompe

sábado, 12 de agosto de 2017

A estátua

Josef Breitenbach - Sculpture Academy, Paris, c. 1935

Tenho frio. Não, o estúdio não está frio. Nem é o estar despida que me traz o frio. É o olhar deles nas minhas costas. Olham para mim e não me desejam, o olhar deles é frio, ao dirigiram os olhos para mim é gelo que deles sai. Só as pobres estátuas que saem das suas mãos recebem o seu desejo, o calor dos seus olhos. Tenho frio, muito. Os músculos começam a perder a flexibilidade, sinto-os duros, o sangue parou e os pulmões já não se movem. Quero, mas não consigo mover os braços. Aquela olhares gelam-me. Toda eu cheio a mármore. Sou uma pedra que nasceu dos olhos deles, a sua estátua, malditos sejam.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poemas do Viandante (643)

Fernando Lerín - Sem título (1985)

643. uma névoa de azul

uma névoa de azul
e pedra
desce na manhã
embriagada
cobre de glicínias
as colinas de mogno
onde sangram
rosas de água
a escorrer púrpura
para o rio de cal e anil

(12/12/2016)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ofícios e profissões

Joaquín Mir - Carpintero

O que se perdeu na transição dos antigos ofícios para as modernas profissões? O essencial da perda reside no desaparecimento do espírito ligado ao trabalho. As modernas profissões visam apenas a eficácia externa e não pressupõem nelas nenhuma metamorfose espiritual. Quanto muito, exigem adequação psicológica. Os antigos ofícios, porém, eram verdadeiros programas de transformação espiritual. O afeiçoar da matéria era também um programa de transformação de si mesmo. O que se ganhou em objectos que, a cada instante, se tornam obsoletos, perdeu-se na vida interior de quem os produz.