sexta-feira, 8 de março de 2013

Um novo acto sacrificial

Max Klinger - Sacrifício

Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu: «O primeiro é: Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» O escriba disse-lhe: «Muito bem, Mestre, com razão disseste que Ele é o único e não existe outro além dele; e amá-lo com todo o coração, com todo o entendimento, com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios.» Vendo que ele respondera com sabedoria, Jesus disse: «Não estás longe do Reino de Deus.» E ninguém mais ousava interrogá-lo. (Marcos 12,28b-34) [Comentário de Teresa de Calcutá aqui]

Uma das cifras possíveis para a hermenêutica deste texto de Marcos reside nas palavras holocaustos e sacrifícios, proferidas pelo escriba. Holocaustos e sacrifícios eram elementos estruturais das várias religiões. O sangue da vítima emissária era visto como tendo poder para aplacar a fúria divina, isto é, para aplacar uma dada crise surgida na sociedade dos homens. Cristo faz notar que o essencial da religião, porém, é o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. E é este duplo amor que é reconhecido como tendo mais valor do que qualquer holocausto ou sacrifício.

Sublinha-se assim um processo de transformação crítica da praxis religiosa. A imolação da vítima é substituída pelo amor. A aniquilação do valor dos sacrifícios de sangue estava praticamente consumada. Faltava o acto último de abolição dessas práticas sacrificiais, o sacrifício do próprio Cristo. No entanto, a abolição do sacrifício de sangue não significa a pura e simples abolição de qualquer sacrifício. O texto, tomado na completude do diálogo entre Jesus e o escriba, deixa compreender uma outra forma de sacrifício, o amor.

O amor a Deus, para o qual se devem mobilizar todas as faculdade do homem (o coração, a alma, o entendimento e a vontade), é ainda um acto sacrificial e purificador dessas faculdades. Por norma, o homem deixa-se arrastar para a errância fazendo um uso limitado desses poderes, concentrando-os no acessório, no privado e naquilo que o aliena. O amor incondicional a Deus é o mais estranho e exigentes dos sacrifícios, aquele que contraria as nossas pulsões para o amor próprio.

Também o amor ao próximo contradiz a tendência egoísta presente em cada um de nós. Nos grupos humanos, a rivalidade entre os particulares desencadeava crises que apenas o sacrifício, muitas vezes de uma vítima humana, punha cobro. O texto de Marcos assinala uma transformação da função sacrificial. De resolução de uma crise, o sacrifício, fundado no amor a Deus e ao próximo, torna-se prevenção de conflitos, abertura ao outro e à vida em comum.

2 comentários:

  1. "A imolação da vítima é substituída pelo amor."
    O sacrificio continua a fazer parte da vida do Cristão, mas na forma de amor ao Deus, tão exigente, em vez de sangue do próprio.

    "Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes", afinal, quem consegue amar Deus, consegue amar todos.
    Só assim se quebra a tendência egoista da natureza humana

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    1. Do ponto de vista civilizacional, este é um momento central. A substituição do sngue pela purificação e o amor.

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