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sábado, 11 de março de 2023

Crónicas (222) O poeta

Imagem obtida com IA da CANVA

Olhou-se ao espelho e não soube identificar o que via. Aquela imagem seria o seu reflexo ou a de um simulacro. Abriu a torneira do lavatório e ouviu a água correr, sem desviar os olhos daquilo que pairava diante de si. Nem todas as manhãs o confronto com o espelho era tão cruel, abrindo-lhe uma fenda na alma, um rasgão na memória. Quando acontecia, porém, era tomado pelo medo e uma dor germinava por dentro do corpo, aumentava enquanto a água desaparecia. Chegado ao paroxismo da dúvida, ao momento em que a dor se tornava insuportável, apagava a luz, voltava costas e corria para a secretária. Caneta na mão, escrevia o primeiro verso. Olhava-o com alívio, depois outro e outro, até que a dor desaparecia e a dúvida tombava vencida por terra.

sábado, 20 de agosto de 2022

Crónicas (221) A felicidade

Amelia C. Van Buren, Profile portrait of woman draped with a veil, 1917
(src 
L. of Congress)
O véu cobria-lhe a cabeça, nunca o rosto. Este oferecia-o ela aos olhos que nos seus se quisessem deter. Falto à verdade. Não era uma questão de querer, mas de poder. Movidos pelo desejo ou pela vaidade, muitos pretenderam olhá-la de frente, submetê-la. Nenhum o conseguiu. Mal os seus olhos se encontravam com os dela, não tinham outro remédio senão baixarem, vencidos por um poder que não era humano, diziam. Todos, porém, lhe conheciam pai e mãe. Tão humanos quanto eles. Os anos passaram e os pretendentes perderam a ousadia, desapareceram. Restei eu. Não tive mais coragem do que eles, apenas encontrei a hora certa. Quando a olhei, os seus olhos estavam mortos. A cegueira dela roubou-a à solidão e trouxe-me uma inesperada felicidade. Até hoje.

sábado, 23 de julho de 2022

Crónicas (220) Um comboio

Toni Schneiders, Train in landscape, 1950s
Não há memória de ali ter havido uma linha de caminho de ferro. Os poucos habitantes daqueles lugares ermos não sabem o que são carris ou comboios. O mais extraordinário era o maquinista. Na verdade, uma mulher sem idade, cujo rosto não era possível reter. Olhava-se para ele e logo o esquecíamos. Quando o comboio, uma composição movida a vapor, parou num lugar onde não havia qualquer estação, entrou um casal, ambos com uma idade muito avançada. Também eles se vão embora, ouviu-se. Ao som de um apito, a máquina pôs-se em movimento, arrastando carruagens velhas e sombrias. Enquanto se afastava tudo o que ficava para trás se apagava. Ao fim de alguns instantes, não havia vestígio de ter havido carris por onde um comboio pudesse passar. 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Desabrigado

Weegee, Night Shelter, c.1938

Tinha chegado a onde nunca imaginara chegar. Estava só e descobrira que nenhum lugar fora feito, na realidade, para ser o meu lugar. Nenhuma desculpa podia apresentar no tribunal da consciência para me absolver da situação. Tão pouco seria sensato culpar qualquer entidade metafísica que me tivesse predisposto para a ruína. Escolhera, fingindo não escolher, o caminho que me levou a este abrigo. Por incúria, pela vertigem de um desejo de queda. Na hora em que me deitei no banco de madeira, estava reconciliado comigo. Abandonara tudo. Chegara ao centro de mim mesmo. Descobrira que a verdade de todo o homem é ser um desabrigado. Ao adormecer, sabia, pela primeira vez, o que era a vida. Poderia recomeçar. Sem qualquer ilusão.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

À procura do lugar

August Sander, Courtyard Musicians, 1928
Os músicos vestiam-se com o esmero exigido pelas grandes salas e no pensamento havia ainda uma réstia de esperança, o desejo de um milagre, um sonho que teimava em persistir noite após noite. Traziam sobre os ombros o peso de uma vida, as ruas por onde vaguearam à procura de um lugar para a sua música. Pátios, praças, esquinas de rua, grandes avenidas, vielas de frequência duvidosa. Paravam e começavam o recital. Havia quem os olhasse de soslaio, quem parasse um instante, quem deixasse cair uma moeda, quem passasse indiferente. Então, retomavam o caminho à procura do lugar onde a sua arte seria sublime e a sua música se confundiria com a das esferas celestes. Quando o vislumbraram, entraram num labirinto e perderam-se no caminho.

sábado, 15 de maio de 2021

A fronteira

Eugene Robert Richee, Betty Grable, 1930s
Da única coisa de que tenho a certeza é do seu nome. Encontrei-a sentada diante de um espelho. Entre ambos parecia haver uma estranha relação. Não aquela que, por preconceito e irreflexão, atribuímos às mulheres. Parecia antes uma barreira que ela tentava passar, como se quisesse entrar pelo vidro. Precisa de ajuda? Perguntei-lhe. Olhou-me e sorriu, mas não disse nada. Parecia deslocada. Não force o espelho com o corpo, ele pode partir-se. Disse-lhe. Deu-me uma resposta inusitada. As fronteiras servem para ser forçadas, quero ir para a casa. Posso levá-la. Como se chama? Não sabe o meu nome? Quando lhe ia responder, entrou por dentro do espelho e desapareceu. Claro que sabia o seu nome. Não me atrevi a segui-la.

domingo, 28 de março de 2021

O pelicano

René Burri, Le Pelican de Mykonos, Greece, 1957

Todos as manhãs o homem percorria o cais. Não tinha qualquer traço que o diferenciasse dos outros habitantes da ilha. Nunca esquecia o boné e a flauta. Misturava melodias tradicionais, algumas muito antigas, com improvisações, pois o tempo e o treino deram-lhe um domínio perfeito do instrumento. Era sempre acompanhado por um enorme pelicano. Este surgia quando ele tocava certa composição religiosa inspirada no sacrifício de Cristo. Às primeiras notas, a ave vinha do nada e acompanhava o tocador de flauta até se dissolverem no horizonte. Um dia, curioso, abordei o músico e perguntei-lhe de quem era aquele pelicano. Respondeu-me de modo estranho. O pelicano é aquele que é, e aquele que é não pertence a ninguém. 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Metamorfose

Herb Ritts, Versace Veiled Dress, El Mirage, 1990
Seria ingénuo pensar que era um anjo o que de súbito aterrou naquele terreno que mais parecia um deserto. Também especulações sobre seres vindos de outros sistemas solares não passam de fantasias de mentes débeis e delirantes. Quem lá estava, e eu estava, viu muito bem o que se passou. Uma enorme ave poisou em silêncio. Ergueu as asas, como se se espreguiçasse, e, de súbito, vimos que elas se transformavam num véu negro, que, apesar da transparência, ocultava já não um pássaro, mas uma mulher. Belíssima. Era terrível o seu olhar. Desfez-se do véu e caminhou, sem hesitação, para nós. Sentimos um calafrio e começámos a recuar, até que fugimos em desespero. Nunca soube quem ela era ou o que queria. Ainda hoje tremo ao pensar no que vi. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

A luz do meio-dia

Liv Ullmann ©  Norwegian Film Institute

A primeira vez que a vi pensei tratar-se da rainha da noite, a tortuosa personagem de A Flauta Mágica, de Mozart. A escuridão que a envolvia não apenas adensava o mistério como semeava à sua volta premonições das mais funestas. Tinha-me deixado cativar pela primeira impressão e pelos temores do grupo. Nunca deixamos de ceder ao vozear da multidão. Os dias passaram e na minha alma foi crescendo o desconfortável sentimento de injustiça. Olhei-a com mais atenção. A sensação nocturna parecia ceder perante um soberbo esplendor. Havia nela uma luz intensa e inexplicável. Dentro de mim nasceu o desejo de para sempre ser por ela iluminado. Aproximei-me. Ela olhou-me e murmurou: demasiado tarde, também a luz do meio-dia não é filha da eternidade.
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A pergunta

Ingmar Bergman - Gunnar Fischer, do filme Morangos Selvagens, 1957

O que vês? – Ouvi a pergunta, enquanto os olhos caíam sobre o espelho que ela levantava diante de mim. Olhei. E ouvi de novo: o que vês? Perturbado, não sabia o que responder. A pergunta trazia consigo um imperativo, exigia-me uma resposta. Balbuciei algumas palavras, mas ela não as compreendeu e retornou: O que vês? Sim, por certo via-me a mim, mas pela primeira vez eu via outra coisa, além de mim, algo que eu era, mas não o sabia. O espelho exigia de mim palavras que não tinha e, confesso-o, não sabia que resposta dar. Levantei os olhos para ela e perguntei: Quem és tu para me interrogar assim? Posso ser a tua filha, ou a tua mãe, ou a tua primeira mulher, ou a tua morte. O que te interessa saber quem sou? O que vês

sábado, 16 de janeiro de 2021

O desejo

Yale Joel, Ribbon Hats, not dated
Encontrei as quatro pela primeira vez num café. Estavam todas juntas e segredavam entre o chá e risinhos de cumplicidade. Havia nelas beleza e mistério. Procurava-as e sempre as encontrava. Discretamente, foram-me atraindo. Como um pássaro inconsciente deixei-me ir. Por vezes, permitiam-me partilhar algum tempo com elas. Eu não amava nenhuma, mas desejava-as a todas. Até que um dia me prenderam e disseram-me: sentimos bem o teu desejo. Tens de escolher uma de nós, mas depois terás de enfrentar a fúria das rejeitadas. Senti a morte próxima. Valeu-me a presença de espírito e o pendor para aceitar o mal menor. Respondi que não rejeitaria nenhuma, mas casaria com aquela que um sorteio ditasse. Não posso dizer que seja um casamento feliz.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Acerto de contas

Richard Stacks, A Drink in the Rain, 1955

Reparei nela no momento em que, sob chuva forte, parou defronte da pequena coluna de pedra, dela fez brotar a água e, como criança afogueada, a bebeu. Senti uma incongruência inexplicável e segui-a. Inventava caminhos que desembocavam noutros, que, dados alguns passos, afluíam ainda noutros. A certa altura, percebi que entrara num labirinto e que apenas podia confiar em que ela conhecesse a saída. Chegada a uma pequena praça muralhada, parou. Aproximei-me. Perguntou-me: não me conheces? Não, respondi. Uma vez dei-te um fio de lã em troca do teu amor. Salvaste-te do terrível labirinto e abandonaste-me. Agora devolvo-te a promessa de amor e levo comigo o fio. Como saí dali e posso rememorar a aventura, não o sei.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Tens de voltar

Alfred Stieglitz, A Snapshot, Paris, 1911

Um acaso pode quebrar o feitiço que nos retém no presente. Um dia, vi-me perdido no meio de uma cidade onde todos se vestiam de forma estranha. Uma mulher, um rosto familiar, chamou-me a atenção. Cheguei à fala com ela. Perguntou-me a razão por que me vestia de modo tão inusitado e olhou-me com condescendência. Falou-me da família, da filha que tinha nascido no ano anterior. Disse o nome dessa filha e eu estremeci. Quis saber o local e data de nascimento, embora eu já o soubesse. Tinha-o escutado à minha avó, era a curiosa história do seu nascimento. Eu falava com a mãe dela, a minha bisavó que morreu trinta anos antes de eu nascer. Divertida, exclamou: conheci-te mal te vi. O tempo é uma ilusão, mas tens de voltar para a tua ilusão. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

A casa e o mundo

Enzo Sellerio, Vizzini, Italy, 1955
Se foi sempre louca? Ó não. Não apenas era a rapariga mais inteligente na escola como, ao crescer, se tornou a mais bela do bairro. O coração perdeu-a. Tinha pretendentes, claro. Apaixonou-se por um, o menos indicado segundo os padrões da família, e, como sabe, as famílias dos meios populares têm por aqui, ainda hoje, tantos anos passados, um poder excessivo sobre o futuro dos filhos, mais ainda sobre o das filhas. Os pais fecharam-na na mansarda e disseram-lhe, não sem ironia, que bem podia esperar pelo eleito. Morreram há muito, mas os irmãos não a libertaram. O pretendente desapareceu do bairro sem explicação. Ela? Cumpre as ordens dos pais. Continua à espera que ele venha. A janela da mansarda tornou-se a sua casa e o seu mundo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Medo

Nobuyoshi Araki, Colourscapes, 1991
Não foi a malevolência de uma bruxa má que lhe pôs aquelas amarras à volta do corpo. Também não foi algum amante dado a práticas de dominação ou excentricidades para incendiar o desejo. Não se lhe conhecem namorados, fixos ou ocasionais. A versão mais fidedigna, pelo menos é a mais verosímil, diz que é ela própria que se liga desse modo. A finalidade? A de todas as mulheres, encontrar o príncipe encantado. Ao que for capaz de a desamarrar, ela entregará o corpo e a vida. Se tem havido pretendentes? Como à mulher de Ulisses, também a ela não lhe faltam. Falham todos. Ela sorri apenas quando mais um desiste desconsolado. Se já tentei? Não, tenho medo de conseguir e de, nesse instante supremo, o meu amor por ela desaparecer sem deixar rasto.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

As águas do Letes

John Martin, Sadak in Search of the Waters of Oblivion, 1812
Conhecera-o há muito. Tal como eu, devia andar pelos trinta no virar do milénio. Desapareceu, pouco depois. Houve notícias desencontradas. Que estava na selva amazónica ou num ashram na Índia. Que teria morrido numa emboscada em África. Nada disto era verosímil. Reencontrei-o há dias. Não me conheceu. Falei com ele durante várias horas. Não havia vestígio do passado na sua memória, embora os gestos, o olhar, o tom da voz, a forma como se movia ou vestia, até alguma precipitação na fala eram os dele. Perguntei-lhe onde tinha estado antes de chegar aqui. Respondeu-me, perplexo, que em lado nenhum. Depois, pensou e disse que tinha vindo por um rio cuja água lhe saciara a sede. Que não lhe fizesse mais perguntas sem sentido. Não fiz. 

terça-feira, 17 de novembro de 2020

A viúva traída

Bruce Davidson, Widow of Montmartre. Paris, 1956
Há coisas que acontecem porque alguém se esqueceu de cumprir uma promessa ou honrar um pacto. Era assim que ela respondia quando a questionavam sobre a razão de se entregar ao álcool. Se lhe perguntavam quem a enganara, encolhia os ombros. Um dia prometeu-me a verdade, caso lhe levasse algumas garrafas de álcool. Levei. Então, lúcida, contou. Fora muito bela e casara com o homem mais belo que havia ao cimo da terra. Amava-o, perdidamente. A morte, porém, enciumada disputou-lho. Fez-lhe frente. A morte perguntou-lhe que condição punha para o deixar ir. Ela respondeu: Nenhuma, mas se o levas, não me deixes entre os vivos. De acordo, respondeu a morte. O meu marido morreu há trinta anos, disse, e a morte traiu o acordo que fizera comigo.

sábado, 31 de outubro de 2020

Estranha condição

Sarah Moon, Masako from Coïncidences, 1989
Um dia, vi-a ao longe e senti um grande desassossego. Persegui-a, sobressaltado, ela alimentou a perseguição. O seu ar oriental, a sua estranheza, depressa transformaram o desassossego em paixão. Cheguei à fala com ela. Não me rejeitou. Perguntei-lhe o nome. Espero nunca to dizer, respondeu. Quando confessei o meu amor, confessou o seu. Havia felicidade nos seus olhos. Impôs uma condição. Tudo menos tocarmo-nos. Estranhei a exigência, mas o amor não pensa. Os dias passaram e o meu desejo cresceu, tornou-se impossível de conter. Passeávamos por um bosque ao crepúsculo. Não resisti, e a minha mão caiu sobre o seu corpo. Da boca saiu-lhe a palavra Eurídice e como uma sombra desvaneceu-se perante a incredulidade dos meus olhos.

domingo, 25 de outubro de 2020

A cadeira

Ilse Bing, Chairs with Leaves, Luxembourg Gardens, Paris, 1952

Ela sentava-se nessa cadeira todas as manhãs. Contemplava o jardim durante dez minutos e ia-se embora. Eu observava-a, de longe e fascinado. Um dia não se levantou. Prosseguiu a contemplação. Estranhei, mas tive de sair. Quando voltei, na manhã seguinte, ela aí continuava, imóvel. Aproximei-me e toquei-lhe pela primeira vez. Era mármore do mais puro que já vira. Fiquei desconcertado, mas a sua transformação em estátua eternizava-lhe a beleza. O pior foi o dia em que os serviços camarários descobriram a irregularidade daquela estátua. Quando os funcionários lhe tocaram para a remover, o mármore desfez-se em poeira, e a única mulher que amei foi levada pelo vendaval que se levantou.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Êxtase

Pina Bausch, Blaubart, 1977
Fora em outras épocas e elas não se livrariam da fogueira, acusadas de bruxedo, confessando cópulas frenéticas, noite fora, com algum íncubo. A imaginação é prodigiosa. Aqui, porém, trata-se da realidade. Num primeiro momento, elas dançaram, desenhando com o rigor os passos do bailado. Depois, pensei estar numa festa em honra de Diónisos. Eram ménades frenéticas e loucas. De súbito, a música parou e elas pararam. Algumas caíram, a outras o êxtase elevou-as, suspendeu-lhe a submissão à gravidade e, durante horas, ali ficaram perante o espanto de quem assistia ao espectáculo. Quando alguém se lembrou de fazer voltar a música, elas pousaram os pés no chão e saíram. Eu vi, estava lá.